São Paulo e o cordel

por aderaldo

A semana passada estive em São Paulo por 5 dias para inteirar-me do movimento, que virou escola, Caravana do Cordel. Diante desses empreendimento de poetas cordelistas em torno do seu principal produto cultural, o cordel, tudo parece pequeno. A produção continua firme, as publicações também. As editoras aos poucos estão abraçando a causa. E os meios de comunicação, decobrindo o material. Aliás, ontem, dia 26, foi para o ar pela Rede Internacional de Televisão, a RIT, da Igreja da Graça, do missionário R.R. Soares, matéria no Nosso Programa, programa de variedades, à tarde com os cordelistas João Gomes de Sá e Varneci Nascimento. Esse fato é pontual na história do cordel. Foi alvissareiro ver na tela imagens do cordel Homossexualidade: história e luta, de Varneci e Nando Poeta. Bem como Os dez mandamentos do preguiçoso, do mesmo Varneci. A Caravana está forte e crescendo.

Desse encontro surgiu a palestra sobre Leandro Gomes de Barros, no dia 19, para uma plateia de cordelistas e músicos. No meio deles achava-se Gregorio Nicoló, dono da Editora Luzeiro, a mais antiga casa de publicação de cordel no Brasil e uma das primeiras editoras de São Paulo. Gregorio tem sido peça chave na consolidação do cordel publicando autores novos e consagrados e recebendo com rara sensibilidade estudiosos que queiram olhar o seu acervo. Desse nosso encontro saiu a parceria para novos empreendimentos em termos de publicação de Antologias de cordel.

Passei, ainda, na Editora Nova Alexandria, na qual trabalha o poeta Marco Haurélio, figura ao redor da qual se construiu a Caravana. Marco é curador da já afamada coleção Clássicos do Cordel. É um homem cuja pena de poeta complementa o tino de pesquisador e a visão de mercado. Acabou de publicar pela Paulus a Lenda do Saci Pererê, em cordel, com ilustrações da pernambucana Elma. Uma edição magnifica, de luxo. Veio juntar-se a O príncipe que via defeito em tudo, publicado anteriormente pela Acatu, com ilustrações de Nireuda Longobardi.

Além dos consagrados tive a oportunidade de travar amizade com Pedro Monteiro, cordelista estreante autor de Chicó, o menino das cem mentiras, quando retoma o personagem clássico do cordelismo brasileiro, menos conhecido do que seu parceiro João Grilo, mas tão importante quanto. Pedro Monteiro é um autor síntese cuja produção é regida pela pesquisa e pelo rigor. Apesar de estar começando, seu traço poético deixa entrever um futuro promissor. Começar no mundo do cordel com Chicó é ousadia e conquista.

Outro de quem me acheguei foi Nando Poeta. Já com alguns títulos no matulão, Nando é o poeta engajado. Ativista político, trouxe para o cordel as lutas sociais. Assim seus folhetos 1º de maio, Assédio moral é crime e Educação não é mercadoria preenchem uma lacuna, sem se despedir do essencial no cordel: a poesia. Alertado para o fato de não cair no panfletarismo, Nando busca o equilíbrio entre o lírico e o épico. Mas é necessário andar devagar para dosar as cores sem exageros.

No dia 19, quando de minha palestra, foi lançado um cordel de Benedita Delazari intitulado A escravidão negra e o quilombo dos Palmares, com ilustração de capa de Cícero Soares. Em duas cores, preto e marrom, esta capa impressiona pela maestria, colocando por água a tese de que o cordel tem que ter obrigatoriamente uma capa de xilogravura. Em tópicos futuros apresentarei um por um esses cordeis e falarei mais dos cordelistas em São Paulo, disputando a vanguarda com o Ceará. Vanguarda que já foi paraibana, mesmo produzida a partir de Recife. Outra história.

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