O Quilombo de Benedita Delazari

por aderaldo

Chegou-me à mão o cordel A escravidão negra e o Quilombo dos Palmares de Benedita Delazari. A autora nasceu em Sales, São Paulo, e sua autoria em cordel vem quebrar um paradigma fictício por cujas regras o cordel obrigatoriamente teria de ser produzido por nordestinos. O equívoco dessa prerrogativa é flagrante diante do trabalho literário. Sendo o cordel uma forma poética, qualquer poeta pode, desde que o queira, abraçar-lhe o engenho e emprestar-lhe a arte. E foi isso que moveu Benedita.

Publicado pela Editora Luzeiro, a principal casa publicadora de cordeis brasileira, o folheto desde já se insere no produto poético brasileiro como um achado, uma descoberta. Se no passado a produção de cordel ressentia-se da autoria feminina, Benedita aos poucos vem suprindo essa lacuna. Tendo lançado em 2005 As aventuras do menino Jesus, fruto das histórias ouvidas, lidas e vividas em sua fé e crença, a autora seguiu os passos de sua ascendência e nos oferece, além de sua versão para a saga dos nossos afro-descendentes, uma boa página poética.

Em 64 sextilhas o folheto conta resumidamente os fatos e desarranjos decorrentes de todo o processo escravocata em solo brasileiro. O seu narrador é seco, mas criativo, fazendo cumprirem-se a todo momento as regras do cordel, sem ceifar das estrofes a necessária compreensão, nem cometer a maldade das maldades: quebrar o pé do verso. Mesmo em sextilhas truncadas como as três primeiras, é necessário notar o esforço técnico e o respeito ao rigor para não macular a forma. Assim:

Na história da humanidade
Muitos feitos são contados,
Quero citar o exemplo
Dos nossos antepassados,
Heróis de um povo forte,
Para a luta preparados.

Belo exemplo encontrei:
Gladiadores romanos,
Ao libertarem escravos
Das mãos de nobres tiranos,
Muito tempo resistiu
Exército de espartanos.

Com a história do Brasil
Faço uma comparação,
De um fato acontecido
No tempo da escravidão,
Por um quilombo de negros
Formando rebelião.

Quando escrevo “truncadas” não quero dizer trancadas. Explico: a compreensão não é prejudicada pelo artifício na busca do respeito à métrica e à estrófica do cordel. Para essa adequação é fundamental a supressão de palavras e, certas vezes, de termos, deixando apenas a indicação para que a intuição do leitor, ou seu cabedal cordelístico, lhe confira compreensão. Voltemos ao truncamento das sextilhas. A primeira deixa ao leitor séria dúvida: a que povo forte refere-se o narrador? Aos negros africanos ou aos gladiadores romanos que vêm logo a seguir na segunda estrofe? Quem são os herois desse povo forte preparados para a luta? Tenho dito que a primeira estrofe de um poema de cordel deve ser perfeita em todos os sentidos. Para seduzir o leitor, prendê-lo, acorrentá-lo às surpresas do que virá.

A segunda estrofe deixará seus dois últimos versos quase órfãos, senão totalmente órfãos. Por quê “Muito tempo resistiu/ Exército de espartanos”? Qual a função desses dois versos na estrutura da estrofe? Aparentemente eles nada dizem. E atenção: não estou afirmando que o verso seja ruim! Não. A autora tem o domínio poético e métrico e, talvez por isso, para respeitar as rígidas regras do cordel, tenha se permitido essa construção que soa duvidosa quanto à pertinência. Para a terceira estrofe ficará o quinhão mais difícil. Vejamos.

Onde reside a semelhança entre a nossa história de escravidão e as ações dos gladiadores romanos libertando escravos de “nobres tiranos”? Citando elementos historicamente distantes e sem relação alguma, essa comparação necessita de base para ser edificada. Há, porém, a seguir dois pontos a observar: o termo “quilombo de negros” é redundante. Bastaria a palavra “quilombo”, pois essa é a palavra para designar a associação de negros fugidos e refugiados em aldeia no coração do sertão brasileiro. E faz-se necessário esclarecer o fato de que os quilombos não fizeram rebelião, criaram resistência. Essas observações deveriam ter sido proferidas quando da revisão. São questionamentos que o revisor deve colocar, sem constrangimentos, para o autor. A decisão final é do autor, mas a obrigação de alertá-lo para esses pequenos deslizes é do revisor. São essas feridas responsáveis por todo tipo de críticas contra o cordel, mas o poema de Benedita não são apenas essas três estrofes.

As estrofes lidas anteriormente perdem força quando a quarta estrofe, na virada de página, anuncia magistralmente:

Muitos livros de história
Contaram essa aventura,
O assunto é muito fértil
E o interesse perdura.
Ofereço aos estudantes
Um livro em miniatura.

Estrofe redonda. Prima. Lúcida. O folheto de Benedita começa aí e desconfio, de verdade, que essa tenha sido a primeira estrofe construída para ele. E se não o foi, deveria ter sido. A partir dela o folheto toma um rumo crescente, em poesia e história. Para escrever sobre Palmares, bem como sobre qualquer fato histórico, o pre-requesito é a pesquisa e a autora a fez diligentemente. Encontraremos outros pequenos deslizes, mas nada que uma boa revisão não os estirpe, sem haver necessidade de grandes mudanças textuais. Também encontraremos momentos de intenso teor poético, como este:

Relembro o Navio Negreiro
O porão escuro e fundo,
Como escreveu o poeta:
“Infecto, apertado, imundo”
O morto de fome ou peste
Atirado ao mar profundo.

Ou este:

Em caso de rebeldia
O negro recém chegado,
Era levado às caldeiras
Pelos pés agrilhoado,
Ali trabalhando meses
Noite e dia atormentado.

O desenho da capa feito por Cícero Soares é ponto alto do cordel. Em apenas duas cores, preto e marrom, seu jogo de sombras, com Zumbi, no plano americano, tendo ao fundo paisagem quilombola, na qual figuram o trabalhador, a mulher e a criança, a habitação e a mata, suprem a imagem de um vigor realístico fascinante. Preciso anotar, entretanto, que o título em caixa alta é uma armadilha pois confunde o topônimo com o resto do texto, não sendo possível a identificação das letras maiúsculas. O recurso de “negritar” o artigo “A” lhe concede destaque inóquo, quando bem poderia ter servido de traço distintivo para o “Q” de quilombo e o “P” de Palmares. Outro senão é o texto do miolo todo em itálico. Sabe-se que o uso desse recurso serve para destacar uma palavra ou um termo, não cabendo o seu uso indiscriminado sobre todo o corpo poético. Coisas a serem reparadas na segunda edição.

No mais, Benedita usa e abusa do seu talento, terminando seu poema com a tradicional ruptura em acróstico, só que ao invés de seu nome, ela crava BRASIL, assim:

Brasil terra de heróis
Revelando seu valor
A sua “Constituição”
Simboliza com louvor:
Igualdade de direitos
Liberdade, paz e amor!

Quero lembrar que o papel do crítico é ingrato e doloroso, mas fundamental para a discussão sobre o fazer poético. É bom acrescentar que sem o poeta, a figura do crítico jamais existirá. Por isso, vida longa aos poetas. Vida longa à pena de Benedita Delazari.

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