Quero escrever um cordel

por aderaldo

Os meus amigos poetas cobram-me a escritura de um cordel. Ainda não criei coragem para isso. Falta-me peito. Temo os mestres, amedronto-me com os espíritos pioneiros. Sou um Manoel-Borra-Botas. Por enquanto, sigo os caminhos da crítica e da mímica poética. Por isso, deixo aqui partes de meu novo livro Do que disseram os poetas que quisera fosse poesia. Aliás, a professora Heloísa Buarque de Holanda disse-me, frente a diversas testemunhas, que meu livro O auto de Zé Limeira seria um ensaio. Talvez esse próximo também o seja. Os dois fazem parte de uma trilogia que se encerrará em 2011 com Os aspectos do boi. Essa trilogia é assinada por Aderaldo Cangaceiro, mas vamos ao que interessa. Do que disseram os poetas é uma cantoria que registrei e passei para a escrita, oferecendo um acréscimo aqui e ali, adulterando os versos originais. Como os cantadores não se opuseram, amarrei-lhes uma forma e coloquei o nome de um alter ego. Trata-se, portanto, de uma apropriação.

1. Por ocasião da chegada de uma moça formosa que se sentara na platéia

— Observe a obra rara
Que Deus fez para nós vermos
Mente sã e corpo são
O Belo em todos os termos
Fitoterapia e química
Deixando nós dois enfermos!

— Labirinto a nos perdermos,
Entranhas da Natureza.
Quais mãos esculpiram a Ninfa
Com tanto esmero e destreza?
É Céu e Geena juntos
Deixando a gente mais presa!

— Considere esta surpresa
Na tênue luz de um quarto:
Boca, seios, glúteos, coxas,
dorso e cabelo farto
corpo-fruta acidulado
Deixando ao poeta.. infarto!

— É como se fosse um parto
Tendo a ação dividida
Parturiente e parteira
Sentindo ambas a vida
A sudorese e o sorriso
Deixando a dor sem saída!

2. Por ocasião de um galo ter cantado por volta da meia-noite enquanto a cantoria seguia

— Os galos de minha terra
São galos-maracanãs
Acordam com sua música
Cabras, ovelhas, marrãs
Riscando com o bico-canto
A leve tez das manhãs

— Deslizam qual rolimãs
Sua pauta musical
Estendem suas bandeiras
Nas cercas do meu quintal
Terreno sonoro extenso
Todo dia, por igual.

— Nenhum galo canta mal
Todos têm o mesmo encanto
Mas têm cantos diferentes
Uns de riso, outros de pranto
Uns porque morreu um louco,
Outros, por nascer um santo!

— Todo embrulhado em um manto
Para amenizar o frio,
O tilintar dos meus dentes
E as águas desse meu rio.
E os galos indiferentes
Cantando horas a fio.

3. Por ocasião de duas crianças terem homenageado os poetas com ramalhetes de flores no intervalo da cantoria

— Flores, perfumadas flores
Por mãos de botões trazidas
As rimas do nosso rumo
São estampas coloridas
flores e rimas efêmeras
Eternas lembranças idas

— As cores de nossas vidas
Saem de um prisma talhado
Em cristal, pedra-de-fogo,
Polido quartzo incrustrado
Na Serra da Borborema
Dentro da pedra gestado

— O sertão é um cercado
De pedras que são humanas
De homens que são de pedra
De dias que são semanas
E de séculos dissolvidos
Num só bater de pestanas

— Há secas que são insanas
E chuvas benevolentes
Há crianças como essas
Que trazem flores contentes
E há flores mudando a vida
De dois poetas cadentes.

4. Por ocasião de um professor chamado Abrão, ter pedido por escrito que os poetas opinassem sobre o conceito de imitação platônica

— Subentenda-se um novelo
Contido em um simulacro
E este por sua vez,
Como um objeto sacro,
Escravizado por outro
Em uma caixa que eu lacro.

— Verei se desencalacro
O conceito de Platão:
Há um pão que está no céu
Outro que está no balcão
O padeiro imita Deus.
E aos dois a palavra PÃO!

— Palavra e imperfeição
Distando em terceiro grau:
Imita o produto humano
Que imita o celestial
Guardado fora do mundo
Na noite mais ancestral

— Prender nosso cabedal
Com o grilhão da vossa estética
É querer que um desregrado
Leve vida mais ascética
É nos dar o cadafalso,
Enforcar nossa Poética.

5. O verso de improviso encafifando os críticos ignorantes na arte da cantoria

— O verso de improviso
É momentânea ilusão
Espera-se que o poeta
Quebre o pé da criação
Deixe-o manco, ferido
Como um ferro retorcido
Cuja única serventia
É ser aleijão disforme
Um monstro que nunca dorme
Deformando a Poesia.

— O poeta, todavia,
De boa cepa gerado
Constrói no barro do verso
Um vaso bem adornado
Dá-lhe cores, apetrechos,
Capaz de lhes dar desfechos
Surpreendendo a platéia
Que ao crítico literário
Ensina o abecedário
Com toques de cefaléia.

6. Porque um poeta formado nas academias não sabe improvisar e por isso rotula essa arte, a do improviso, de arte menor

— O poeta de bancada
Sentado em seu gabinete
Passa a vida reescrevendo
Seu verso para um banquete
Diz: “Poesia é Trabalho”
E insiste em dar mais um talho
Naqueles versos ranzinzas.
Por vezes o resultado
É papangu desolado
Na Quarta-Feira de Cinzas.

— Enquanto que o repentista
em seu furor instantâneo
Formula e burila o verso
No caldeirão de seu crânio
O que duraria um mês
Dura um segundo ou três
E eclode quente e bem feito
O ouvido que escuta
Reconhece ali labuta
E acabamento perfeito.

É! Acho que chega de maltratá-los.

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