Aderaldo Luciano

cordel e outros laços

Lançamentos

1.

Seguindo o seu rumo, na senda do cordel, a Editora Luzeiro, relança, repaginado e com nova capa, o clássico de Antonio Teodoro dos Santos, Lampião, o Rei do Cangaço. Biografia do famoso capitão Virgulino, esse cordel tem como aspecto marcante a utilização das cantigas populares, louvando ou condenando o cangaceiro.

2.

O Mistério da Pele da Novilha é o novo livro em cordel do poeta Josué Gonçalves de Araújo. Uma narrativa forte e original. Com essa obra, o autor se consolida entre os cordelistas mais interessantes dessa geração. Se com O Coronel Avarento já se revelava uma ótima pena, com esse, ele se supera. E mais material bélico a sair.

3.

A Visita de Lampião a Padre Cícero no Céu é mais um lançamento da Luzeiro. O cordel de Varneci Nascimento é um divisor, pois reavalia o mito lampiônico a partir do mito católico da salvação. As personalidades controversas dos dois herois sertanejos, a la Virgílio, perambulam pelos também controversos Céu e Inferno, estabelecimentos e repartições da mitologia cristã. Cordel que dialoga com o lançamento no cinema de Nosso Lar.

Anotações para uma poética cordelial V

1.
Há uma insistência entre os pesquisadores e alguns poetas em vincular a xilogravura ao cordel. Em certo momento da década de 50 do século passado, essas duas artes se encontraram, mas são autônomas. A xilogravura é só mais um processo ilustrativo do cordel. Não o representa, nem é uma sua extensão.

2.
O romance sumiu do cordel. O cordel de gracejo, o cordel pedagógico, o cordel das adaptações estão tomando o lugar das pelejas, dos romances, das aventuras originais. Os cordéis sobre seu Lunga são best-sellers, sobre o peido, sobre a bunda, etc. Mas e os romances? Quem tem fôlego para o cordel original? Motivos não faltam? Faltarão poetas?

Anotações para uma poética cordelial IV

1.
O amigo Cláudio Portella, autor da biografia do Cego Aderaldo, afirmou-me: vejo o cordel não como poesia, mas como gênero literário. E eu concordo, discordando. É poesia lírica, épica e dramática. Por isso se confunde, mas um mergulho mais fundo (sem escafandro) pode afogar e aí, sim, beberemos suas certezas, respiraremos suas verdades e morreremos em paz!

Responde o amigo Cláudio Portella:

Amigo Aderaldo, eu não afirmei isso. Eu disse que talvez possa ser assim. Não sou um estudioso do cordel, nem pretendo ser. Só fomentei a crítica sobre o assunto. Nada mais! Já vai longe meu tempo de afirmações. Abração carinhoso do seu, CP.

Obrigado pelo puxão de orelhas.

Comment by Cláudio Portella — 26 September 2010 @ 10:23 pm
2.
Durante algum tempo, minha posição diante da Academia Brasileira de Literatura de Cordel foi de crítica ferrenha por acreditar que estaria criando um gueto e fomentando a apartação. Amadurecendo na vida, comecei a perceber que posso continuar minhas críticas, mas de modo contributivo para o melhoramento da conduta e das relações. E é isso que passo a fazer: contribuir, não com críticas, mas com propostas críticas.

3.
Minha revisão pessoal leva-me, também, às críticas feitas às outras instituições agremiativas do cordel: precisamos dialogar e construir uma proposta única, mas multifacetada, sobre os rumos do cordel no Brasil. Um movimento de norte a sul.

4.
Vejo, ainda, que quanto à teoria, acontecerá com o cordel o aparecimento e consolidação das escolas. Coisa salutar, desde que os arroubos ideológicos (se é que ainda existem) não descambarem para as agressões pessoais.

Anotações para uma poética cordelial III

1.
O complô das elites brasileiras contra o cordel é algo que salta aos olhos. Sempre visto como subpodruto literário, relegado à margem, proibido de frequentar a roda literária dos doutores, nem por isso o cordel curvou-se, pelo contrário, estabeleceu-se de tal forma que podemos identificar sua couraça resistente, adornada com os adereços da vanguarda.

2.
O cordel tem por traço fundamental o verso de sete sílabas, mas não é só. O tempo quaternário de seu ritmo e a acentuação oferecem a preciosidade matemática que o transporta para o lado cabalístico, em minha visão pessoal, mas observável: o metro de 7, o ritmo de 4 e a acentuação de 3.

3.
Passo a acreditar que cordelista não é só aquele que produz o poema em cordel, mas todo mundo que, de alguma forma, contaminou-se enamorado por esse fenômeno poético. Assim, são cordelistas os que o fazem, escrevendo, lendo, ouvindo ou estudando. Até os que se negam a recebê-lo, o são.

4.
O traço formal básico do cordel é o lírico (ritmo, métrica, rima, estrofação linear, sonoridade, subjetividade). O traço social é épico (narrativo, recheado de diálogos, tempo e espaço, heróis, maravilhas). O traço existencial é dramático (pelejas representando as célebres cantorias, os encontros, os debates, as pulhas, as glosas).

Anotações para uma poética cordelial II

1.
As mudanças causam estardalhaço. No cordel, o importante não está no invólucro, na embalagem, no rótulo, mas na forma poética.

2.
Sabemos, ainda, que toda mudança no suporte físico do cordel é experimental. É saudável que haja discordância, mas lamentável o jogo de intrigas que alguns discordantes patrocinam, comprometendo o culto à alteridade e promovendo inimizades. Como já disse, há alguns que se julgam os delegados. Esses, a despeito, estão trancafiados em sua própria soberba.

3.
O cordel brasileiro, aparecido no Recife no final do séc. XIX, consolidou-se, contra toda espécie de vaticínio, na principal poesia do Brasil. Não porque ocupe espaço fundamental entre os estudos sobre a poesia nacional, mas por ser a única forma poética legitimamente brasileira.

4.
Embora pesquisadores acadêmicos e não-acadêmicos tenham conferido ao cordel uma gênese ibérica, faltou-lhes o principal: honestidade intelectual. Assim passou-se para a história de nossa literatura uma poesia que não é, senão, um prolongamento daquela matriz portuguesa da qual herdou o nome. Minha senda é desconstruir essa teoria, revisando seus conceitos e percurso histórico.

Anotações para uma poética cordelial

1.
Respeito o trabalho de todos os brasilianistas que enveredaram pelos estudos sobre o cordel, mas parece-me que não alcançaram o fundo do tacho, ali, onde ficam aqueles cascões que só com muita paciência é possível arrancar e ver a superfície polida, areada, como um espelho.

2.
Quando optei em ser editor de cordel minha vida deu um salto de qualidade: passei a ser mais humano, mais político, mais humilde, mais tolerante, mais amável, mais ecológico, mais plácido. E realmente passei a não ser só mais um rostinho bonito.

3.
Também constatei que o mundo do cordel reflete o mundo da literatura oficial: tem seus medalhões (que se julgam acima de tudo), suas vaidades, suas traições, suas inseguranças, suas agressões, suas fofocas. Mas foi o mundo que escolhi e meu objetivo é torná-lo melhor, amando-o e tentando compreendê-lo.

4.
O cordel não é apenas uma forma poética, há uma aura a ser respirada, assim como o tango e a dança flamenca. Infelizmente a banalização da sextilha encobre essa característica.

A Bagaceira

No prefácio de A Bagaceira, o célebre livro de José Américo de Almeida (que vi morrer solitário), está um decálogo interessante. Diz um dos mandamentos:

“— Há uma miséria maior do que morrer de fome no deserto: É não ter o que comer na terra de Canaã.”


A Bagaceira, publicado em 28, como sabemos, inaugurou o ciclo do Romance Regionalista brasileiro, da década de 30.

A Arte de Escrever, por Schopenhauer

Citando Schopenhauer em A Arte de Escrever:

“Também se pode dizer que há três tipos de autores: em primeiro lugar, aqueles que escrevem sem pensar. Escrevem a partir da memória, de reminiscências, ou diretamente a partir de livros alheios. Essa classe é a mais numerosa. Em segundo lugar, há os que pensam enquanto escrevem. Eles pensam justamente para escrever. São bastante numerosos. Em terceiro lugar, há os que pensaram antes de se pôr a escrever. Escrevem apenas porque pensaram. São raros.”

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