Anotações para uma poética cordelial III

por aderaldo

1.
O complô das elites brasileiras contra o cordel é algo que salta aos olhos. Sempre visto como subpodruto literário, relegado à margem, proibido de frequentar a roda literária dos doutores, nem por isso o cordel curvou-se, pelo contrário, estabeleceu-se de tal forma que podemos identificar sua couraça resistente, adornada com os adereços da vanguarda.

2.
O cordel tem por traço fundamental o verso de sete sílabas, mas não é só. O tempo quaternário de seu ritmo e a acentuação oferecem a preciosidade matemática que o transporta para o lado cabalístico, em minha visão pessoal, mas observável: o metro de 7, o ritmo de 4 e a acentuação de 3.

3.
Passo a acreditar que cordelista não é só aquele que produz o poema em cordel, mas todo mundo que, de alguma forma, contaminou-se enamorado por esse fenômeno poético. Assim, são cordelistas os que o fazem, escrevendo, lendo, ouvindo ou estudando. Até os que se negam a recebê-lo, o são.

4.
O traço formal básico do cordel é o lírico (ritmo, métrica, rima, estrofação linear, sonoridade, subjetividade). O traço social é épico (narrativo, recheado de diálogos, tempo e espaço, heróis, maravilhas). O traço existencial é dramático (pelejas representando as célebres cantorias, os encontros, os debates, as pulhas, as glosas).

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