O justiceiro do norte, épico de Rouxinol do Rinaré

por aderaldo

A poesia Épica não morreu, está na origem da literatura de vários povos, para atestar o fato de que, na América pré-cabralina, havia uma cultura cuja tradição, embora ágrafa, encontrava-se assentada sobre os patamares histórico e mitológico, com um conjunto de narrativas de caráter epopéico, mas a chegada do europeu estabeleceu um corte cultural, irreparável no tempo. As narrativas autóctones cederam lugar às narrativas ibéricas, romances de cavalaria, autos de Gil Vicente, à épica camoniana. Só com Gregório de Mattos, sobre o cadáver indígena, haverá a primeira experiência da poesia “morena”, sem o elemento épico, porém, que só será retomado no Romantismo, com o redescoberto Sousândrade.

                                 

Rouxinol do Rinaré retoma a narrativa épica nesse seu cordel. Li seus versos por duas vezes num voo que saiu de Juazeiro do Norte para Brasília e daí para o Rio de Janeiro. Meu interesse não era só ler e entreter-me, era observar, riscar o cordel, encontrar seus elementos poéticos, compreendê-los. Os desenhos dessa edição, abertamente inspirados nos épicos de western (o autor é fã de Tex), recontavam-me a narrativa e levavam-me ao clássico de Bonelli, num diálogo magnífico. Mas não é só isso, sendo um épico, não lhe faltariam os elementos essenciais: o herói injustiçado deixando sua terra para, em outras terras, transforma-se em mito, sob outra identidade, defendenso os fracos, apaixonando-se por uma nativa e por ela sendo amado. Aprisionado pelos guerreiros que defende, é reconhecido (como Ulisses) pela cicatriz que carrega, faz amor com sua amada e desaparece sob as águas amazônicas (como Ajuricaba lendário), deixanso sua descendência. Rouxinol sabe contar histórias em cordel como ninguém. E aprimora-se a cada dia. Já é um clássico, mesmo tão jovem.

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