Breve história da literatura de cordel, de Marco Haurélio

por aderaldo

                           

A literatura de cordel, o cordel, nasceu no final do séc. XIX, fruto da confluência para a cidade do Recife, de quatro poetas nascidos na Paraíba.  Silvino Pirauá de Lima, Leandro Gomes de Barros, João Martins de Athaíde e Francisco das Chagas Batisa formaram a Geração Princesa do cordel.  A reunião desses quatro cumpriu aquilo que Luís de Camões  prediz no seu clássico epopeico Os Lusíadas: quando o engenho e arte se encontram, boa coisa há de sair. E foi isso. A poesia rimada nordestina encontrava na capital pernambucana as, então, modernas máquinas de impressão tipográfica, os prelos europeus.  Daí para a composição dos folhetos e sua comercialização bastou o gênio de Leandro Gomes, o primeiro poeta-editor do Brasil. Escreveu, imprimiu e comercializou suas póprias obras. E viveu a vida exclusivamente dessa prática, passando para a história como Pai do Cordel brasileiro.

Durante muitos anos, vários pesquisadores procuraram o caminho mais fácil para explicar a gênese do cordel no Brasil. A maioria, até final da década de 80, atribuía ao cordel uma herança ibérica, por achar que no cordel brasileiro residiria elementos iguais e semelhantes ao produto português ou espanhol. Teimavam em ignorar a originalidade do nosso produto e necessitavam de um cordão umbilical transatlântico para corroborar a importância do cordel. Talvez nunca tenham tido em mão algum exemplar de folheto de cordel português para atestar a profunda dessemelhança. O cordel português reproduzia obras clássicas como as peças de Gil Vicente, canções de gesta , orações, vidas de santos e outros assuntos. Não havia a produção escrita própria e autônoma. Tampouco o seu veículo, livreto ou coisa parecida, folhas volantes, também não respeitavam a semelhança. Mas foi essa desinformação que passou para nós.

De outra forma, os mesmos pesquisadores fizeram-nos crer que o cordel como ele é seria tão somente a extensão escrita do universo oral dos cantadores e repentistas nordestinos. E a partir dessa outra contra-informação foram colocando no mesmo caldeirão as modalidades da cantoria nordestina, os próprios folhetos de cordel e todo e qualquer tipo de construção poética que trouxesse em sua forma elementos de rima e métrica supostamente oriundos do Nordeste ou que com eles dialogasse. Chegou-se ao cúmulo de indicar algumas obras de Castro Alves como sendo cordel, ou um proto cordel. O importante é que, levando em consideração esse aspecto, caíram no mesmo embornal  cocos, cirandas, maracatus, martelos, qualquer manifestação poética rural. E o cordel deixou de ser a produção escrita, a obra feita, o fruto do trabalho de um poeta de bancada, ou de gabinete, para ser um espectro oco no qual muito recheio acabou por nublar o recheio principal.

Essas duas gêneses citadas acima tornam-se contraditórias a quem, pelo mais leve debruço, queira problematizá-las.  Verifiquemos: se o nosso produto cordelístico fosse tão somente a versão escrita da oralidade dos cantadores, o de Portugal deveria ser o prolongamento da oralidade de trovadores, menestreis, jograis e segreis. E não o foi. Toda a produção oral desses, ou se perdeu, ou foi transformada nas tradicionais cantigas de amor, de escárnio ou de maldizer. Não nos consta que o cordel português veiculasse tais motivos. Como dissemos acima o conteúdo cordelístico português era de outra modalidade. Mais uma vez usamos a palavra infelizmente para lamentar que outros estudiosos e pesquisadores em vez de investigar apenas repassaram os esses equívocos conceituais. Mas ao mesmo tempo comemoramos, pois a lacuna aberta por eles pedia preenchimento e, agora, com essa Breve História da Literatura de Cordel se inicia esse processo.

Ao fazer esta apresentação, até certo ponto desnecessária, nós celebramos o encontro e a oportunidade. Celebramos o encontro porque o autor, Marco Haurélio, é um mestre da literatura de cordel que reúne além dos requisitos de poeta, os predicados de pesquisador e a visão de homem de mercado, atuando com o mesmo afinco nessas três dimensões do fazer literário. Escrevendo cordel desde os seis anos de idade, Marco viajou para São Paulo com seus cordeis sob o braço para publicá-los pela famosa Editora Luzeiro. Já havia levado um não, mas não desistiu. Dono de uma memória bem servido, com trechos de cordeis clássicos e cordeis inteiros decorados, além de conhecedor da história do cordel, Marco acabou por se fixar como a personalidade para a qual outros poetas acabaram convergindo. Com seus cordeis publicados, reconhecida a pena e a letra, passa a atuar no mercado editorial como curador da coleção Clássicos em Cordel da editora Nova Alexandria.

Esse passo decisivo para o autor desta Breve História, foi também marcante para a própria história do cordel no Brasil. A coleção retomava um importante veio de formação daquela forma poética: a adaptação de obras universais para a linguagem cordelística. No início do cordel, ainda em Recife, e mesmo depois de lá, com a sua consolidação, os temas e novelas universais sofreram essa releitura e, transportadas para as sextilhas ou setilhas típicas do cordel. Por esse novo veículo chegaram ao interior nordestino e povoaram o imaginário de muitas gerações. João de Calais, Carlos Magno, Oliveiros e Ferrabrás, a Donzela Teodora, os contos de As Mil e Uma Noites caminharam lado a lado com as histórias tradicionais nordestinas do boi misterioso, de João Grilo, das fábulas do tempo em que os animais falavam, das pelejas, etc.

Dizíamos da celebração do encontro e da oportunidade. A oportunidade surgida com a publicação deste livro é aquela que visa realmente anotar passos e percursos do cordel no Brasil. Não a repetição dos equívocos já apontados por nós. É o olhar de quem está por dentro do imbróglio cordelístico, como protagonista, como ator consciente do seu labor.  Não apenas como autor celebrado, mas, também, como gestor atento e cuidadoso. Quando apontamos esses predicados em Marco Haurélio não é com o intuito de louvá-lo com um palavreado típico de apresentações em compadrio. É o reconhecimento a quem que, com tão pouco idade, muito já fez pelo cordel e seus poetas. Foi com ele e ao redor dele que surgiu a Caravana do Cordel, movimento-escola, reunindo os melhores cordelistas da atualidade em São Paulo.

Como autor Marco já está devidamente entronado. Seus cordeis, desde O Heroi da Montanha Negra,  publicado pela Editora Luzeiro, A Megera Domada, pela  Nova Alexandria, O Príncipe Que Via Defeito em Tudo, pela Editora Acatu, A História do Saci-Pererê, pela Paulus, dão a dimensão de sua abrangência em termos de difusão e trabalho. Outros títulos tantos estão espalhados. Mas não é só. A sua face de pesquisador traz uma marca diferenciada. Enquanto os pesquisadores primeiros escreveram seus estudos abonados em seus gabinetes de trabalho —  muitos não recolheram uma página sequer em campo—, conversaram com um cantador ou um cordelista, compraram alguns folhetos ou gravaram falas de alguma cantoria, Marco recolhe desde há muito contos orais que em breve sairão em livro e que aos poucos os transforma em cordel, tendo a dignidade de informar a fonte e dar-lhe o crédito. No que se refere ao cordel  foi o responsável por descobertas preciosas no acervo da Luzeiro, detentora do maior acervo de cordel do Brasil.

Não nos resta dúvida, desde a leitura dos originais, da importância desta Breve História para os futuros pesquisadores. Nela, Marco Haurélio determina definitavamente as diferenças entre o cordel  e o poema matuto, coloca os pontos finais na tese que  aproximou o cordel  do repertório repentista dos cantadores do Nordeste, revisa a cronologia cordelística, identifica os principais pontos de produção, desfila as principais editoras e faz um mapa da produção contemporânea, apontando seus  principais autores. Repetimos: não é só. Além disso, toca com precisão num ponto controverso do cordel: as ilustrações. Retira o peso da xilogravura tida e havida desde a década de 80 como sinônimo de cordel e que, até hoje, ressoa no peito de alguns autores e amantes do cordelismo. Marco desfaz essa falácia e ensina o caminho. Elenca os produtores dessa arte, mas faz questão de deixá-la bem no lugar onde merece: ao lado do cordel, mas não se confundindo com ele.

Nesta Breve História encontraremos os diálogos mantidos entre o cordel e outras formas de arte, entre o cordel e outras produções literárias. Bem como a apresentação de nomes de importantes ilustradores que, com traços e cores bem distintos, dão ao cordel a força de ser tradição e vanguarda, de trazer continuação e ruptura, de ser arte e entretenimento, além de ser a única forma poética genuinamente brasileira. Ousamos afirmar sem qualquer receio que quem quiser saber o que é cordel encontrará aqui neste título da coleção Saber de Tudo a sua lanterna. 

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