O sertão é meu lugar, de Moreira de Acopiara

por aderaldo

           

José Aderaldo Castello, no segundo volume de A literatura brasileira – origens e unidade, elege Graciliano Ramos como um autor-síntese do Regionalismo Brasileiro. Explica que as características do romancista alagoano são suficientes para determinar os caminhos e as características da produção regionalista. Alinhados com o pensamento de Castello podemos afirmar que Moreira de Acopiara é um poeta-síntese dentro da produção literária nordestina. Observação autenticada pelo diálogo entre sua origem e sua formação.

Moreira cresceu ouvindo poetas da oralidade e amadureceu lendo os poetas escritores. Tanto o baião dos violeiros repentistas, aquela sonoridade que, aos leigos, parece monocórdica, como a voz cantada de Patativa do Assaré, engravidaram sua pena. Mas não se deve refratar desse veio a voz grandiosa dos vaqueiros desenvolvendo outra melodia mais arrastada, regida pelo tilintar dos chocalhos das reses, ao pôr-do-sol. Inclua-se também o dialogar ríspido dos pandeiros nas refregas poéticas dos coquistas emboladores. Em sua letra encontram-se esses signos.

Não demorará mais, quem busque, a encontrar outros elementos orais: o tempo de elaboração dos glosadores, numa roda de glosas, pulhas poéticas, divinações rimadas, contos folclóricos e tradicionais, danças e cantos dramáticos, benditos e ladainhas. Está tudo lá, submerso no estrato gráfico de seus poemas. Alimentado pelos ouvidos, parte para aliviar os olhos com os clássicos da rima do povo e com os vanguardistas experimentais. Senta-se no banquete dos poetas matutos e deita-se na rede dos poetas de cordel.

Em sua pele encontraremos as marcas da diáspora, em sua alma os anseios míticos do eterno retorno. A migração não lhe arrancou a terra do sol, o sertão brabo, como diriam os apologistas sertanejos, mas também não lhe fechou o corpo à urbanidade. Os atalhos poéticos de Moreira vão de uma a outra paisagem com mansidão e passo calmo. A musa sertaneja e a musa litorânea, os apelos do cariri e as buzinas paulistanas, adormecem e madrugam no cais de sua inspiração. Daí para o éter, de lá para a eternidade.

O cordel, o soneto, o poema curto, a sextilha, as décimas, os decassílabos regozijam-se em seu fazer poético. Este livro é uma pequena mostra do seu vasto potencial, é uma antologia dos seus cinquenta anos, uma breve sombra no sol a pino do seu escreviver. Se me fosse dado o direito de escolher um nome para este volume, eu o chamaria de Os óculos de Deus. Mas não me foi pedido esse privilégio. 

 

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