Pinto do Acordeon

por aderaldo

       

A Vila de Patos assistiu abismada à primeira peleja entre dois bons repentistas. Um, negro e escravo, Inácio da Catingueira. O outro, branco e livre, Romano da Mãe d’Água. Um, ao som do pandeiro, o outro, ao som da viola. Noventa anos depois, em 1964, a mesma vila, agora cidade, olhava o moço Francisco Ferreira de Lima, trocar passos tímidos pela rua principal, molhado pela água do Piancó, nutrindo grandes esperanças, sob o céu da morada do sol.

A geração que se seguiu obrigou-se a ver e a ouvir a timidez transformar-se em ousadia. Respirando o ar dos poetas, pois Patos está a meio caminho entre Pombal, de Leandro Gomes de Barros, o pai do cordel, e a Serra do Teixeira, de Silvino Pirauá, o poeta enciclopédico, o jovem Francisco criou seu próprio terreiro para o arrasta-pé. A lua nova e vermelha, o sol espadaúdo, a terra crespa e calcárea, as plantas desconfiadas e os animais desafiadores, foram motivos para seu desasnar.

O olhar do homem furou o ventre das coisas, escaneou suas vísceras, revirou seus mistérios, escrutinou suas entranhas. A mão do homem deslizou pelas teclas sensíveis da concertina, seus dedos pressionaram os pinos, procurando os sons baixos e harmônicos. Os pés do homem organizavam o primeiro passo, sentindo o caminho, testando o equilíbrio. A cabeça erguida, o queixo pra frente, a barriga desforrada e o pulmão vertendo cem mil libras de oxigênio, vibrando as cordas vocais: era Pinto do Acordeon.

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