Aderaldo Luciano

cordel e outros laços

Os 4 do cordel

O cordel brasileiro, como hoje é, não tem qualquer raiz ibérica, mesmo com alguns pesquisadores insistindo nesse tese. A literatura de cordel ibérica ou francesa ou italiana, as folhas soltas, o corrido, nada têm em comum com o nosso cordel, forma poética. Há um sistema no cordel brasileiro: um autor, um editor, um leitor, um crítico. A literatura de cordel ibérica nunca teve, nem terá, porque morta, esse sistema. Os pais do cordel brasileiro são esses quatro cavalheiros enfatiotados aí:

São eles, no sentido horário: Leandro Gomes de Barros, o autor-editor-vendedor, criador da forma e do folheto; Silvino Pirauá, o poeta enciclopédico, criador do romance em versos; Francisco das Chagas Batista, fundador da Popular Editora, editor de Leandro, autor de antologias de poetas do povo; João Martins de Athayde, controverso editor e poeta, visionário do mercado do cordel, empreendedor ousado:

Observe-se em cada um o ar imponente de escritor e empresário, imagem distante daquela que alguns estudiosos nutrem chamá-los de analfabetos, autores de pouca ou nenhuma valia:

1. O ar bonachão de Leandro, com seu bigode de aço a furar os estudiosos da literatura brasileira, desafiando-os a encontrar um lugar para o cordel.

2. O ar intelectual de Pirauá como que a rir desses mesmos estudiosos, admirando-lhes a ignorância.

3. O ar desafiador de Chagas Batista chamando-os para a briga do punhal cordelístico contra a espada fumegante da crítica viciada.

4. O ar misterioso e despretensioso de Athayde como quem está se lixando para tudo isso

Os Cabras de Lampião, de Manoel D’Almeida Filho

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Os Cabras de Lampião é o clássico cordel de Manoel D’Almeida Filho. Foi um trabalho preparado pelo mestre poeta (nascido em Alagoa Grande-PB, em 1914) com muita pesquisa, muita delicadeza poética, muita lucidez. Nunca a história do herói do sertão foi tão esmiuçada em cordel. Nunca ouviremos nas mídias dedicadas às minúcias literárias que esse poema está inserido no rol das 10 mais importantes narrativas do séc. XX. Mas a academia alemã o considera. Na época em que isso aconteceu, o próprio Manoel de Almeida ficou chocado, pois, para ele, o livro seria uma biografia e não uma narrativa de ficção. Todavia o que D’Almeida não levou em consideração é que o seu texto é uma epopeia e, como tal, reúne em seus versos a história real tomando sol na praia do maravilhoso. Em 2014 celebraremos o centenário do grande desbravador do cordel brasileiro.

Grinaura e Sebastião

José Pacheco foi o autor de A Chegada de Lampião No Inferno, clássico entre os clássicos do cordel brasileiro. A história de Lampião no cordel toma um novo rumo a partir dele e vários folhetos vieram depois tentando o mesmo sucesso, sem alcançá-lo. Nele, o herói do sertão incendeia o inferno, criando uma quebradeira geral. Com muita sagacidade, Pacheco é consagrado entre os autores de maior reconhecimento no gênero humorístico em cordel, sem necessitar de artifícios que não sejam a criatividade e a presença de espírito. Mas não foi apenas um autor de gracejos. Escreveu também romances densos, com tramas complicadas e ótimos desfechos como A História Completa de Grinaura e Sebastião, trama rural de aventura. Na imagem, as capas da primeira edição, produzida no Recife em setembro de 1944, e a atual da Editora Luzeiro. Note-se na capa de 1944 a ilustração com par romântico hollywoodiano, desmistificando o conceito de capas com xilogravura.

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